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segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Discursos de Trump e discursos dos professores

 Sob a forma de notas soltas, volto a um tema que foi objeto do meu interesse durante muitos anos: «zonas de proximidade entre os discursos dos média e os discursos pedagógicos».

O pretexto para este texto está em artigo de Maria João Guimarães, do jornal Público, do dia 18 de outubro intitulado A confiança que Trump conquistou com a sua «informalidade radical». Este artigo baseia-se numa entrevista a Anna Szilágyi, citando também o linguista  linguista Geofrey Pullum.

O léxico reduzido  é uma das características do discurso de Donald Trump  mas, ele próprio diz «I've got the best words». 

Vários estudos têm contabilizado o léxico reduzido, o emprego exagerado de adjetivos, muitos no grau superlativo, que repete a propósito de assuntos positivos e mesmo negativos e o uso de frases incompletas.

«Anna Szilágyi destaca outra imagem de marca do discurso de Trump, o uso de epítetos. É um recurso usado por Homero na Ilíada e Odisseia, lembra: “Aquiles de pés velozes”, por exemplo, no caso de Homero, “crooked Hillary” (Hillary vigarista, sobre a sua adversária em 2016, Hillary Clinton), ou sleepy Joe” (Joe dorminhoco, sobre Joe Biden, o seu actual adversário), no caso de Trump. Através de repetição, o epíteto cola-se, “reduz o sujeito à característica do epíteto, e estigmatiza-o”, nota Anna Szilágyi» no artigo referido.

E sobretudo o emprego de registo informal que todos usamos com os amigos, mas que não se espera de um político. Com o uso deste registo pretende a aproximação dos eleitores.

Estas características são sujeitas a várias interpretações no artigo, sendo uma delas o declínio cognitivo, até porque Trump não falaria assim, há uns anos. O linguista Geofrey Pullum, da Universidade de Edimburgo, refere que  “o seu discurso sugere alguém com pensamentos dispersos, pouca capacidade de concentração, falta de disciplina intelectual e de capacidades analíticas”, declarou ao site Vox»  pode ler-se no mesmo artigo. 

Mas tratar-se- á também de estratégia: mostrar  que o mundo é simples, sem problemas, mudar as perceções das pessoas, levar à memorização dos slogans simples para problemas complexos?

Da leitura deste texto passo para notas soltas sobre a escola.

1. É fácil analisar os discursos dos média, dos políticos... e  o discurso dos professores e dos alunos?   Até ao final do século, as aulas podiam ser observadas com câmaras, os discursos podiam ser analisados com sistemas  manuais, com transcrições (como as que fiz em 1987 e 1991) para tese de troisième cycle e tese Nouveau Régime, na Universidade de Paris 3 e em diversas investigações e  publicações. Essas gravações eram objeto de análise em aulas e, nas próprias aulas, eram feitas gravações que eram analisadas,  através de metodologia de videoformação. Mais tarde, os meios informáticos vieram facilitar a tarefa.  Mas, há uns anos essa possibilidade acabou. Nem com autorizações. o Ministério da Educação até fez gravações a propósito de «aprendizagens essenciais», mas não estão disponíveis. Fazem-se dezenas  de teses sobre o que os professores e alunos pensam, mas muito poucas sobre o que os professores e alunos fazem nas aulas. Que registos utilizam nas aulas? Creio que com a preocupação da «proximidade» alguns utilizarão um registo informal (até do «porreirismo»). Pergunta que se coloca: Com quem os alunos de meios menos favorecidos aprenderão os registos formais, uma condição necessária a muitos empregos? 

2. O «imediato» tomou conta da investigação e das publicações. O «adquirido» em educação não existe (ou muito pouco). É importante citar  artigos dos últimos 5, 3 anos em currículos, em programas de UC...   E os clássicos, as referências?... ´Poucas são as referências atuais, por exemplo, sobre observação de aulas ou análise de discursos dos professores e dos alunos.  Como se forma um professor sem se saber observar uma aula? Como se formam professores sem aulas observadas? Eu sei- dir-me-ão_« a observação faz parte da avaliação dos professores». Claro, mas como aprenderam a observar? Muitos aplicam «fichas», como os alunos «aplicam fichas», nas aulas e em teletrabalho? E «a observação de aulas» faz parte de didáticas e práticas nos cursos de formação de professores». Também sei? E as referências bibliográficas? E as metodologias de observação de reconstrução ou reconfiguração das práticas? Onde andam? Não as  tenho visto. E não é um problema de visão. 

3. Código restrito e código elaborado

Por falar em referências, vou a um clássico que morreu  no ano 2000 e, por isso, já desapareceu das bibliografias há muito tempo: Basil Bernstein.  Lucíola Licínio de C. P. Santos faz  uma apresentação clara do trabalho deste autor Deixo Labov para outro momento. O seu trabalho foi muitas vezes reduzido à distinção entre código elaborado e código restrito, mas ajuda pelo menos a colocar questões.

4. O código de Donald Trump é «restrito», porquê?

Que professores estamos a formar? Se são os alunos com classificações mais baixas, nomeadamente a Português, que professores vamos formar? Devo dizer que, nos últimos anos em que dei aulas, me apercebi, não digo do «código restrito» de alguns candidatos a professor, mas de uma dificuldade comum em explicar ou em argumentar.  Mesmo nos mestrados, em colóquios, em congressos...   

Desenvolvi este assunto nos artigo «O interessante e o demonstrativo...»    

Abordagem acional e competência comunicativa multimodal: estaleiro de apresentações de trabalhos 

https://gerflint.fr/Base/Europe10/ferrao_tavares.pdf

académicos 

Há tantos professores a seguir os mesmos princípios discursivos de Trump! Cuidado colegas do »estudo em casa». Não se esqueçam que são modelos discursivos para centenas ou milhares de pessoas!

A elaboração implica esforço!

5. Poderia ainda acrescentar referência artigo de Clara Ferreira Alves sobre  os discursos das emoções, no último « Expresso »: « Quando passámos a utilizadores em vez de cidadãos, sendo utilizador o update de consumidor, passámos a usar as partes menos complexas do cérebro. Em vez de articular uma frase, grande trabalho, podemos usar uma careta amarela e engraçada e assim demonstrar as nossas emoções... Tudo foi simplificado para nos neutralizar equalizando as emoções individuais num emoji colectivo, para normalizar no mínimo tempo e espaço disponíveis ».

Esta simplificação com neutralização das emoções preocupa-me.

6. E, para terminar estas notas soltas... «Falemos de cartas...» de José Tolentino de Mendonça, também no Expresso de 18 de novembro 2020!

Sei que posso ser acusada de um uso pouco cuidado da língua portuguesa nestas mensagens, mas não estou a escrever um artigo, estou a escrever um «rascunho», num registo informal. É essa a característica principal dos blogues: escrita imediata, diferente da escrita elaborada, com tempo.




segunda-feira, 20 de abril de 2020

#estudoemcasa Agradecimento público e sugestões

Um grande obrigada a toda a equipa de colegas que decidiu  participar nesta Escola. Parabéns também ao Ministério que tomou esta iniciativa. Parabéns à RTP que a tornou possível.  A TELEVISÃO é a instituição mais democrática a seguir à ESCOLA, dizia Louis Porcher, no final do século passado. Com a Escola fechada, depois do recurso a dispositivos tecnológicos mais modernos e mais interativos, mas, altamente, discriminatórios, como professora que explorou, investigou, formou professores sobre «zonas de proximidade entre a Escola e os Media», em particular sobre a televisão (foi esse o assunto de aula de Provas de Agregação), não poderia deixar de me congratular com esta Escola.
           Apesar de aposentada,  acho que a minha história poderá ajudar outros professores. E é, por isso, que aqui estou. Vou dedicar-me sobretudo às aulas de Português  do primeiro ciclo. Apesar de ter sido professora do segundo ciclo e secundário, foi, no âmbito do ensino superior, na formação de professores do 1º ciclo, que mais intervim. E intervim, investigando, lendo muito,  dando e assistindo a muitas aulas. E continuo a ler, por isso, aqui estou a escrever.  Até dei aulas gravadas e transmitidas na televisão! No âmbito da Universidade Aberta, dei uma Unidade de «Os média e a aprendizagem», para a profissionalização de professores e incluída num mestrado de Multimedia e educação.

Vou centrar as minhas sugestões nas  aulas de Português. Hoje, foram as primeiras, «muito duras»... Eu sei... na gravação da aula  de que mostro fotografia, maquilharam-me com bâton. Fiquei tão perturbada, não era eu, dado que nunca usei e... «entupi». Eu que falo tanto, não conseguia articular... não conseguia dizer nada. À terceira tentativa,  puseram-me um teleponto e  consegui fazer qualquer coisa... Até expliquei.


Nunca gostei desta primeira aula, mas foi vista, em alguns sábados, na RTP, durante muitos anos. Demasiados, até já tinha passado a ser loura e ainda me via morena no ecrã! Este é um dos riscos das gravações: duram, duram...

Sei que as colegas hoje já são dos tempos das selfies e, por isso, estão mais habituadas. Eu estava habituada a muitas gravações, mas... com alunos... E aí surge outro problema: falar para muitos. No meu caso, eram os estudantes da Universidade Aberta, mas nos cabeleireiros, às vezes diziam que me conheciam da televisão. Aqui e agora... estão todos em frente ao ecrã. As crianças que são as verdadeiras destinatárias e os pais. Imagino facilmente comentários de hoje: «só ler livros...nós também sabemos ler e melhor». Mas, os vossos principais interlocutores são as crianças que não têm nem livros nem quem lhes leia livros. Quanto aos professores, nossos colegas, muitos dirão aquilo que eu ouvi, durante anos, sempre que lhes mostrava gravações de aulas por dezenas de professores: «Eu faria muito melhor». o pior é que,  a seguir, quando lhes pedia que encontrassem alternativa e os gravava... os dos outros grupos diziam o mesmo. E não imaginam a dificuldade que tinha e, nos últimos tempos pior, para conseguir gravar aulas, até para os vídeos da Universidade Aberta.  Por isso, força! Não vejam redes sociais!

Quanto à aula de leitura de horários...aí virá a crítica seguinte, já muito conhecida.«textos funcionais! é preciso ensinar a lê-los?».
Não se preocupem... vão ouvir estes comentários todo o tempo. Eu antecipo-os com a experiência que tenho, renovando os meus agradecimentos públicos  e dando-vos os meus parabéns!

Mas, como gosto e dar sugestões, propunha que, por vezes, antes da leitura dos livros, façam perguntas sobre as imagens, para que as crianças aprendam a ler imagens e antecipem o que vão ler ou se deixem surpreender.  De vez em quando, também, quando há duas professoras, uma (alternadamente) pode desempenhar papel de aluno. O recurso a simulações é um bom processo interativo, apesar de as duas terem de ser «reconhecidas» como professoras.A identificação com os professores é um bom princípio no ensino a distância.

Por hoje é tudo. Deixo-vos com sugestões de aulas em textos que possivelmente conhecem: os materiais do PNEP. 
E, já agora,  uma publicidade à autora deste blogue . Já tem uns anitos, mas as propostas não estão desatualizadas.

https://www.portoeditora.pt/produtos/ficha/didactica-do-portugues-lingua-materna-e-nao-materna-no-ensino-basico/195860


segunda-feira, 4 de junho de 2018

Didática das línguas-culturas, supervisão e comunicação multimodal

ESE de Castelo Branco, 7 e 8 de junho


Ver o início deste post em:

https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4008973240688193762#editor/target=post;postID=7372822702322864588;onPublishedMenu=template;onClosedMenu=template;postNum=2;src=postname

Conclusão sobre o ciclo de  videoformação

e convite para observar como se aprende a comunicar observando bons comunicadores para se conseguir a «distanciação».
O exemplo que apresento é retirado dos Clubes TED. TED propõe agora um programa às escolas para que as crianças aprendam a comunicar com os comunicadores profissionais das Conferências TED. Muito interessante! Não encontrei nenhum clube em Portugal. Haverá?


https://www.youtube.com/watch?time_continue=15&v=ly7PSsgh_QM

sexta-feira, 3 de março de 2017

Videoformação (simulação vídeo) e formação de professores

Vou começar conferência aqui, como está a ser hábito
Título:
Tempo, espaço e comunicação multimodal  em cursos de formação de professores 

De acordo com o Decreto-Lei 74/2006,

«O grau de mestre é conferido aos que demonstrem:
Possuir conhecimentos e capacidade de compreensão a um nível que (…) permitam e constituam a base de desenvolvimentos e ou aplicações originais, em muitos casos em contexto de investigação (…)
Possuir capacidade para integrar conhecimentos, lidar com questões complexas, desenvolver soluções ou emitir juízos em situações de informação limitada ou incompleta (…);

Ser capazes de comunicar as suas conclusões, e os conhecimentos e raciocínios a elas subjacentes, quer a especialistas, quer a não especialistas, de uma forma clara e sem ambiguidades»
Para se ser professor é preciso o mestrado.
Como é que os cursos de professores desenvolvem estas competências nos futuros professores? 
Em que situações têm os professores de saber comunicar? Em situação de comunicação «científica», como todos os mestres, para dar a conhecer o seu trabalho de investigação aos pares e à comunidade científica e, também, em situações de comunicação com crianças e adolescentes?
Recuando no tempo... na formação de professores havia tempo: os cursos eram mais longos.
«Observando» o espaço: as instituições de formação, nos anos de 1980- 2005 tinham espaços específicos para desenvolverem competências de comunicação didática: A Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra tinha salas de micro-ensino (utilizei  equipamento na minha tese de doutoramento),  a ESE da Guarda e a de Coimbra  tinham salas de micro- ensino, a  ESE de Santarém tinha  uma sala de micro-ensino, posteriormente reconvertida em sala de videoformação, e um centro de línguas também equipado para video-formação...
Que aconteceu a estes espaços específicos?
Foram reconvertidos  quase sempre em centros de informática, muitos com material obsoleto  mal acabava de ser comprado e os estudantes dos cursos de professores foram desviados para outros espaços, dado que as escolas se abriram a cursos de comunicação...
Mas será que, hoje, com telemóveis e tablets se justificam salas específicas?

Esta será uma questão a que procuraremos dar resposta, aprofundando, claro, a questão da metodologia: será que a videoformação  (metodologia que começámos a utilizar nos anos 80 do século passado) se  justifica?
Nos planos de estudos de cursos de professores  e nas fichas curriculares quais as metodologias adotadas para desenvolver as competências referidas? A videoformação aparece?  Aparecem simulações globais ou simulações de sequências? Quais os instrumentos de observação das interações? 


Se olharmos para o que se passa nas empresas ... temos a resposta.
Mas, no nosso caso, é preciso ir  ver...
E começa aqui a pesquisa bibliográfica, em formato rascunho ou colagem.

Seminário de 2015  da cátedra UNESCO e  formações desenvolvidas em 2016 
Chaire UNESCO "Former les enseignants auXXIe siècle"

La chaire Unesco « Former les enseignants au 21e siècle » est une interface pour favoriser dans la francophonie la circulation des savoirs et viser un dialogue constructif entre les mondes universitaires, politiques et professionnels qui ont tendance à se tourner le dos. Depuis 2012, la chaire déploie ses actions autour de quatre objets de recherche et de formation : a) nouveaux espaces de formation, b) nouveaux outils de formation avec évaluation de leurs effets, c) trajectoires professionnelles des enseignants tout au long de leur vie et d) professionnalité des formateurs d’enseignants. Des conférences de consensus et dissensus autour de ces quatre objets ont été organisées en 2014 avec plus d’une soixantaine de chercheurs et de spécialistes internationaux et sont consultables sur le site de la chaire.
Publicações

La formation des enseignants en Europe

Approche comparative

https://www.cairn.info/la-formation-des-enseignants-en-europe--978280416202.htm

Chapitre13. Observatoire de l’évolution de la professionnalité enseignante etdispositifs de formation de simulation vidéo

https://www.cairn.info/la-formation-des-enseignants-en-europe--978280416202-p-205.htm

Cyrille Gaudin (2014)

Analysed’activités de formation exploitant le visionnage de vidéos et de leurs effetssur l’activité professionnelle d'enseignants novices : une étude de cas enéducation physique et sportive

http://www.theses.fr/2014TOU20095


Cyrille Gaudin (2014)

QUE SAIT-ON DES USAGES DE LA VIDÉO EN FORMATION DESENSEIGNANTS ET DE LEURS EFFETS ? 

http://ife.ens-lyon.fr/formation-formateurs/catalogue-des-formations/formations-2014-2015/formations-cas/05-utiliser-la-video/cyrille-gaudin.pdf



Des séquences vidéo de classe pour la formation des enseignants

http://www.primlangues.education.fr/actualite/des-sequences-video-de-classe-pour-la-formation-des-enseignants

Exemplo: sequência de leitura

http://www.reseau-canope.fr/bsd/sequence.aspx?bloc=885696

Há várias plataformas em diferentes países:

France
http://neo.ens-lyon.fr/neo/themes/theme-1
Présentation des thèmes
http://neo.ens-lyon.fr/neo/themes/theme-2

Reino Unido

IRIS : The video-based pr


professional learning technology and implementation support

http://www.irisconnect.com/uk/products-and-services/

Quebeque

Issu d'une collaboration entre l'Université de Montréal et le CTREQ, Appui-Motivation présente le modèle CLASSE de la motivation élaboré par le professeur Roch Chouinard
Zoom sur l'expertise  pédagogique
http://zoom.animare.org/zoom

Estados Unidos
Universidade de Vírginia

MyTeachingPartner™, or MTP, is a system of professional-development supports developed through the Center for Advanced Study of Teaching and Learning. MTP improves teacher-student interactions, which in turn, increases student learning and development.
http://curry.virginia.edu/research/centers/castl/mtp
http://curry.virginia.edu/uploads/resourceLibrary/CLASS-MTP_PK-12_brief.pdf
http://curry.virginia.edu/uploads/resourceLibrary/Research_Brief_MTP-PreK_NICHHD2.pdf

As respostas para as diferentes perguntas colocadas serão esboçadas em comentários que se vão seguir. 


  

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Comunicação em saúde

Antes de desenvolver este tópico, gostaria de referir quatro situações:
-Há uns 15 anos, foi introduzida nos cursos de medicina, no 1º ano, uma cadeira de comunicação. Perguntava-me então um amigo meu professor catedrático de medicina qual seria a vantagem. Respondi-lhe que esta se destinava a que os médicos obtivessem uma formação  sobre aquilo que ele tinha aprendido, desde o berço, com o pai que era um médico: a relacionar-se com os doentes. A comunicação é informação e relação e não basta formar profissionais com informação.
-Quando exerci funções de vice-presidente do IPS, coordenei o grupo de trabalho que propôs a criação de uma Escola de Saúde e, nessa altura, insisti com os colegas para a necessidade de incluir, nos cursos desta área,  UC de comunicação e de telemedicina.
-Na formação de professores há uns anos, em muitas instituições foram desenvolvidos projetos de micro-ensino e depois de videoformação, fazendo as questões de comunicação objeto de estudo e observação por parte dos professores e supervisores de práticas. Não vejo, hoje, conteúdos de comunicação em muitos programas de didática e de práticas em cursos de formação de professores. Com o regresso em força da linguística... não sei se há espaço para estas questões , apesar de tanto se falar em empatia!  E interrogo-me sobre esta ausência. Mas deixo o desenvolvimento deste tópico para mais tarde.
-A minha investigação sobre comunicação e mais precisamente sobre comunicação não verbal e , posteriormente, multimodalidade  teve origem em práticas de observação de aulas enquanto orientadora. Grande parte da bibliografia existente, ainda agora, sobre o assunto diz respeito à investigação  sobre comunicação em saúde.

E começo aqui o «relatório» do meu «projeto de investigação etnográfica» conduzido durante um mês em 5 hospitais e vários consultórios. O meu «corpus» inclui as intervenções de 7 médicos, umas 10 enfermeiras, estagiárias de uma escola de saúde de um  IP  e assistentes operacionais, creio que é assim que são designados.

O contexto de urgências de hospitais públicos é um inferno o que talvez explique parte das intervenções dos profissionais de saúde. Doentes sempre a entrar, quase sempre idosos com muitas dificuldades respiratórias que mal começavam a recuperar eram enviados para casa. Esta prática de mandar para casa doentes para não figurarem nas estatísticas já a conhecia  pelo facto de a ter vivido com a minha mãe, em Coimbra. Mas, não explica tudo.

O hospital de Tomar é um não- lugar onde se espera por ambulância que transporte o  doente para Abrantes. Se for aneurisma .... todos sabemos o que se passou nas mesmas datas, a partir de Santarém! Em Abrantes, os serviços de observação compreendem 3 ou 4 salas com «currais» onde se acumulam os doentes que  têm a sorte de não ficar nos corredores. Os  pés de um doente podem estar em cima da maca do doente seguinte. O espaço é limitado, com muitos muitos doentes.Como os profissionais  deveriam observar  todos... a sensação não pode ser pior. A proxémica explica possivelmente parte das agressões verbais dos doentes aos profissionais. Tratamento por tu dos doentes às enfermeiras e palavrões são recorrentes...  As enfermeiras, aliás, utilizam também o tratamento por tu em relação a muitos doentes de meios sociais mais desfavorecidos. Acabada de acordar, foi-me dito  «Já não vai ter mais visitas, já que o seu marido lhe veio trazer exames». Desatei a chorar o que talvez não fosse o mais aconselhado, dada as situação e, também eu fui malcriada «quero ser transferida já para a CUF».

Muitas intervenções de solidariedade e de simpatia vieram do pessoal auxiliar e de algumas enfermeiras. Mas para algumas enfermeiras, para alguns dos médicos de serviço (e tão novinhos!!!)  e estagiárias, os doentes são não-pessoas, para utilizar a designação de E. Hall. Quando se trata de atender o doente correspondente seguem os procedimentos adequados, caso contrário não observam o doente (apesar deste estar num serviço de observação), passando da posição de 3/4,  para não deixarem que o doente olhe para eles e portanto para não terem de falar ou de olhar para o doente, mesmo que este se esteja a dirigir  a eles. «E só à hora X que volto a observar e a falar com o doente Y, por isso ele que não aborreça». Será que quando há um problema neurológico não há necessidade de falar com o doente? O ar de profundo aborrecimento de estagiárias, o facto de tão novinhas terem adotado a postura de 3/4 ou olhando para os caderninhos de notas, deixou-me preocupada. Como é que estarão a ser seguidas estas alunas? Como serão avaliadas? Que profissionais estão a ser formadas? Deixo esta perguntas para colegas de Escolas de Saúde.

Não posso dizer que o tratamento tenha sido incorreto, que não tenha sido submetida aos exames adequados, que o médico me tenha parecido inseguro, mas um doente precisa de mais!

Ainda um caso de jovem  médico na Idealmed em Coimbra que me perguntava : «que quer que lhe faça?» e me mostrava na internet o estado em que eu deveria estar, mas não estava, pelo que« se resolvia a questão com Benuron». No dia seguinte, o colega mais velho, em Tomar, não só detetou o problema como  telefonou  a especialistas de diferentes áreas para que fosse vista e me telefonou várias vezes ao longo do dia e semana. Telefonemas e marcações especiais também da parte de neurologista e cardiologista da CUF. Os doentes para estes eram pessoas, como ouvi um deles a dizer ao telefone!  

Estas observações não me podem levar a concluir que da parte dos mais velhos há um cuidado com a relação que não existe na comunicação com os mais novos, também não poderei concluir que o privado é melhor do que o público. Mas não posso deixar de insistir na necessidade dos profissionais de saúde aprenderem não só conteúdos, procedimentos, protocolos mas também soft competências. Estas estão a ser valorizadas nas empresas, por que não na formação destes profissionais?
Nos últimos anos, a rentabilidade é a medida de tudo. Para não haver «insucesso» recusam-se os doentes em situação de risco!  A um doente correspondem X minutos. Se o médico atender mais doentes recebe um bónus... Nas escolas, quanto mais alunos...melhor. E se forem alunos com explicações, e de classes sociais favorecidas... ficam bem numa escola! O «sucesso»  e a posição nos rankings é assegurada!
E com Bolonha... há que privilegiar os conhecimentos técnicos! Não há espaço para questões de comunicação, de línguas ou humanidades. Não há tempo para conversar!
Fico muito preocupada com esta visão funcional quer seja em educação ou em saúde!

  


 

    

Nonverbal communication (space) in classroom 1

D idática das línguas-culturas, supervisão e comunicação multimodal «Ver para crer» ou… ver para pensar, comunicar e agir in Paixão, F, Regi...