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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Línguas estrangeiras (e Inglês) no 1ºCiclo. Guião para audição no CNE

Deixo aqui  a opinião que defendi no Conselho Nacional de Educação sobre este assunto

As línguas no 1º Ciclo do Ensino Básico, para desenvolver competências plurilingues e pluriculturais ou  as línguas na educação e para a educação

1.  Os portugueses e as línguas, em 2012

1 Relatórios Internacionais:
1.1 Os portugueses e as línguas - Eurobarómetro 
http://ec.europa.eu/public_opinion/archives/ebs/ebs_386_fact_pt_en.pdf
}  Apenas 13% dos portugueses fala correctamente duas línguas estrangeiras, uma quebra de dez pontos percentuais, face à anterior avaliação, em 2006.

}  Os portugueses são os que apresentam das maiores taxas de probabilidade de não falar qualquer língua estrangeira (61%), só os húngaros e os italianos apresentam piores resultados, 65% e 62% respectivamente.

Portugal fica assim a 12% da média europeia e cai dez pontos percentuais face ao anterior relatório.

1.2. First European Survey on Language Competences

«The European Survey on Language Competences (ESLC), the first survey of its kind, is
designed to collect information about the foreign language proficiency of students in the
last year of lower secondary education (ISCED2) or the second year of upper secondary
education (ISCED3) (UNESCO 1997) in participating countries or country communities
(referred to herein as educational systems). The intention was ‘not only to undertake a
survey of language competences but a survey that should be able to provide information
about language learning, teaching methods and curricula.” (European Commission
2007a).»

Neste relatório pode ler-se :
«three educational systems fall in the bottom half of the ranking for both first target language and second target language (France, Poland, Portugal)».
« the use of the CEFR by teachers is limited»
«As the figures in section 4.3 show, three educational systems fall in the bottom half of the ranking for both first target language and second target language (France, Poland, Portugal). Three educational systems appear in the top half for both languages »


2- Um pouco de história europeia…

1998

RECOMMENDATION No. R (98) 6
OF THE COMMITTEE OF MINISTERS TO MEMBER STATES CONCERNING MODERN LANGUAGES(Adopted by the Committee of Ministers on 17 March 1998
at the 623rd meeting of the Ministers' Deputies)


2. Promote widespread plurilingualism:
2.1. by encouraging all Europeans to achieve a degree of communicative ability in a number of languages;
2.2. by diversifying the languages on offer and setting objectives appropriate to each language;
2.3. by encouraging teaching programmes at all levels that use a flexible approach - including modular courses andthose which aim to develop partial competences - and giving them appropriate recognition in national qualification
systems, in particular public examinations;
2.4. by encouraging the use of foreign languages in the teaching of non-linguistic subjects (for example history,geography, mathematics) and create favourable conditions for such teaching;
2.5. by supporting the application of communication and information technologies to disseminate teaching and learning materials for all European national or regional languages;
2.6. by supporting the development of links and exchanges with institutions and persons at all levels of education in other countries so as to offer to all the possibility of authentic experience of the language and culture of others;
2.7. by facilitating lifelong language learning through the provision of appropriate resources.


B. Early language learning (up to age 11)

3. Ensure that, from the very start of schooling, or as early as possible, every pupil is made aware of Europe'slinguistic and cultural diversity.
1. Final report of the project group (Doc. CC-LANG (96) 21) and report of the final conference (Doc. CC-LANG (97) 7).
34Recommendation No. R (98) 6
4. For all children, encourage and promote the early learning of modern languages in ways appropriate to national
and local situations and wherever circumstances permit.
5. Ensure that pupils have systematic continuity of language learning


2002 – Conselho Europeu de Barcelona
The EU Education Council recalled the importance of the Barcelona objective of 2002 of learning two foreign languages from an early age. The Ministers invited the Commission to pursue work to enable citizens to communicate in two foreign languages, to promote language teaching, where relevant, in vocational education and training and for adult learners, and to provide migrants with opportunities to learn the language of the host country.
2012
COMUNICAÇÃO DA COMISSÃO AO PARLAMENTO EUROPEU, AO
CONSELHO, AO COMITÉ ECONÓMICO E SOCIAL EUROPEU E AO COMITÉ
DAS REGIÕES
Repensar a educação - Investir nas competências para melhores resultados
socioeconómicos
… enquanto a aprendizagem de línguas é importante para o emprego e requer especial
atenção
Num mundo de intercâmbios internacionais, a capacidade para falar línguas estrangeiras é um
fator de competitividade. As línguas são cada vez mais importante para aumentar os níveis de
empregabilidade9 e a mobilidade dos jovens, constituindo as fracas competências linguísticas
um importante obstáculo à livre circulação de trabalhadores. As empresas também exigem as
competências linguísticas que permitam operar no mercado global.
3.  Um pouco da história em Portugal

1998-2008


·         Criação de Cursos de Estudos Superiores Especializados em ensino Precoce das Línguas em ESE e Universidades com designações diferentes
·         Projetos nacionais e internacionais dinamizados por ESE e Universidades e professores dos CESE
·         Projetos dinamizados pelo Ministério de Educação. Participação em Seminários internacionais de preparação do Conselho Europeu de Barcelona, com peritos portugueses.
·         Formação contínua de professores do ensino básico e secundário
·         Redes, formações, projectos… 


2008-

Inglês no 1ºCiclo nas AEC

·         Aposentação dos professores que frequentaram CESE e programas de formação contínua
·         Fim da formação contínua
·         Recurso a protocolos com instituições particulares
·         Recurso a professores-tarefeiros
·         Recurso a bons e maus professores do 1º e 2º ciclo
·         Formação à maneira de Maria João Lopo de Carvalho

«As aulas de Inglês em quase um quarto das 96 escolas do 1º ciclo do ensino básico de Lisboa vão ser asseguradas, este ano lectivo, por uma empresa de que é proprietária a escritora Maria João Lopo de Carvalho, assessora da vereadora da Educação e Acção Social da Câmara de Lisboa, Helena Lopes da Costa.
 (…)
"Modéstia à parte, faço isto muito bem"


4.  Iniciativas  do Conselho da Europa (que sustentam recomendações do CE)

2001

Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas: Aprendizagem, Ensino, Avaliação



2010

Guide for the development and implementation of curricula for plurilingual and intercultural education
Jean-Claude Beacco, Michael Byram, Marisa Cavalli, Daniel Coste, Mirjam Egli Cuenat, Francis Goullier et Johanna Panthier (Division des Politiques linguistiques)!



2010

LANGUES DANS L’EDUCATION, LANGUES POUR L’EDUCATION
Plateforme de ressources et de références pour l’éducation plurilingue et interculturelle

  
Language and school subjects Linguistic dimensions of knowledge building in school curricula

http://www.coe.int/t/dg4/linguistic/Source/Source2010_ForumGeneva/KnowledgeBuilding2010_en.pdf
Interroger, Deviner, Nomear, Qualifier, Raconter Identifier,Classifier,Catégoriser,Sélectionner, Résumer,Contextualiser,Structurer,Argumenter…

(cf Programa da Língua Materna de 1911 para o Ensino Infantil)

5.   O ensino Precoce do Inglês  em Portugal  no quadro das AEC e Contributo do Ensino Precoce do Inglês, ou melhor, das Línguas no 2º Ciclo

Impressões sobre

·         motivação: motiva os alunos, num primeiro tempo, mas desmotivação depois, sobretudo na entrada no 2º ciclo com reínicio.

·         resultados: Os alunos aprendem vocabulário de cores, estações do ano,partes do corpo,números até 10, a apresentar-se e algumas canções… (verbos)

·         metodologia: recurso ao método direto ( método que foi adotado em Portugal em 1907 ( na altura com recurso a mapas parietais bem mais bonitos do que as imagens utilizadas presentemente mesmo no software dos quadros interativos multimédia)

·         origem dos professores: com formação dos centros de línguas, de outros ciclos, professores com bom e mau nível de língua…

Efeitos: desmotivação nos outros ciclos, acentuação das diferenças entre os que aprendem em bons centros e os das AEC, diferenças de nível de língua no 2ª ciclo com repetições, «overdoses» de Inglês: Na minha perspectiva, esta opção pode  levar aos maus resultados, optando os alunos de meios mais favorecidos por escolha de outras línguas, no secundário, e repetições dos alunos mais fracos-nível de saturação.

E, no entanto…

Todos os meninos que vêm televisão em Portugal são plurilingues
As línguas (diversificadas) têm um papel na educação e servem para a educação
As línguas servem:

·         Para pensar (desenvolvimento cognitivo, flexibilidade, plasticidade neurológica, estratégias de intercompreensão, apropriação da língua materna…desenvolvimento físico - fala-se com o corpo, os gestos antecedem a verbalização e são diferentes nas diferentes línguas)

·         Para saber (como são as línguas ,para comparar, para conhecer outras culturas…)

·         Para comunicar  saberes ,sentimentos, emoções (para contar, para descrever, para sintetizar, para contextualizar, para comparar… (saberes transponíveis a Matemática, a Geografia, a História … para  interagir com os outros, com meninos com outras línguas culturas, com as mesmas línguas…)

·         Para gostar e sentir (para respeitar os outros, para  se abrir aos outros – atitudes, valores- exprimir os próprios sentimentos, para compreender os dos outros, para saber ouvir, para valorizar os outros.

Se não é para adquirir uma competência plurilingue e pluricultural, então, na minha perspectiva,  o ensino do Inglês só tem desvantagens. (Eu sou capaz de ensinar muito mais do que as cores, o vestuário ou as datas…, numa hora, sem que os alunos as esqueçam). Como é possível andar, 2 ou 4 anos para isso!

6.  Cenários que enquadrem o Ensino do Inglês ou das Línguas


Sendo uma inevitabilidade no 1º Ciclo, então…

Necessidade absoluta de uma investigação de casos (qualquer inquérito a nível regional ou nacional só reforça a opinião de que o Inglês é muito importante:.. daí tempo e dinheiro perdido) com recurso a acção e observação, recurso a grupos de foco)…

Cenário 1 (as turmas estão separadas)

1ºe 2º Ano – Sensibilização à diversidade linguística e cultural recorrendo a materiais multimédia, televisão como na telescola e Universidade Aberta- 15 minutos por dia.

Formação de professores em b-learning

3º e 4º ano- Inglês-   recorrendo a materiais multimédia, televisão como na telescola e Universidade Aberta- 15 minutos por dia mais 2 aulas para exploração dos materiais a que os alunos foram expostos.

Formação de professores em b-learning

Os alunos deverão  estar em A1 no final do 4º ano, começando A2 no 5º.  Começam em B1 no 7ª  .No final do 8º ou 9º deverão estar em B1  ou mesmo  B 2 e FIM do Inglês.

Entretanto no 7 ou 8 deve ser iniciada nova língua estrangeira.  


Cenário 2 _ todos os anos estão na mesma turma

1º período- Sensibilização à diversidade- 15 minutos todos os dias- para todos os alunos

2º e 3º - Inglês- Sensibilização ao Inglês- 15 minutos todos os dias-para todos os alunos

3º e 4º ano- 2 aulas de Inglês com Professora  que fale Inglês para exploração dos materiais apresentados.

Nos anos seguintes deverá haver novos materiais

Programa nacional, televisão, multimédia.
Formação de professores em blearning. PNLE
Metodologia- abordagem plurilingue, acional e multimodal, em articulação com Português- QECR.

Recurso a pais estrangeiros, alunos de anos mais avançados…


Todos os cenários  com Inglês  implicam criação de situações de   desigualdade do mesmo modo que há desigualdades entre público e privado, escolas com 4 anos ou só 2 ou 1…

Recurso a televisão pode atenuar diferenças, mas veja-se que, no caso da telescola, os alunos que chegavam ao 3º ciclo … 

Cenário 3…


Algumas respostas para estes cenários podem ser encontradas em

Bruxelles, le 7.7.2011
SEC (2011) 928 final

DOCUMENT DE TRAVAIL DES SERVICES DE LA COMMISSION
Cadre stratégique européen pour l’éducation et la formation (Éducation et formation 2020)
GUIDE STRATÉGIQUE POUR UN APPRENTISSAGE EFFICACE ET DURABLE
DES LANGUES AU NIVEAU PRÉSCOLAIRE







segunda-feira, 4 de março de 2013

Competências plurilingues e Dicionário Terminológico


Gostamos tanto de seguir orientações  europeias e depois... desconhecemos documentos essenciais (em Educação, por exemplo). Eu sei que  o Guide pour le développement et la mise 
en œuvre de curriculums pour une éducation plurilingue et interculturelle  é  do Conselho da Europa  e não do Conselho da Europa, mas por favor, decisores portugueses e professores, leiam este documento  de
Jean-Claude Beacco, Michael Byram, Marisa Cavalli, Daniel Coste, Mirjam Egli Cuenat,
Francis Goullier et Johanna Panthier (Division des Politiques linguistiques)!

Document préparé pour le Forum politique Le droit des apprenants à la qualité et l’équité en
éducation – Le rôle des compétences linguistiques et interculturelles
Genève, Suisse, 2-4 novembre 2010

Por exemplo:


«1.3.2. L’éducation plurilingue et interculturelle à travers le curriculum
L’éducation plurilingue et interculturelle peut être promue par une action curriculaire à différents niveaux
(voir chapitre 1.1 ci-dessus) : définition de finalités, d’objectifs et de compétences visées, de contenus
et d’activités, modalités d’évaluation, démarches et méthodes expérimentées et diffusées, matériaux
pédagogiques et priorités reconnues pour la formation des enseignants ainsi que, dans la perspective
des coopérations nécessaires au sein des équipes pédagogiques, des chefs d’établissements. Il s’agira
notamment
- de favoriser la coordination entre les enseignements dispensés pour permettre une meilleure
cohérence et synergie entre les apprentissages linguistiques, que ce soit dans les langues
étrangères, régionales, minoritaires ou classiques, dans la ou les langues de scolarisation ou
encore dans les dimensions langagières de toutes les disciplines ;
- d’identifier les compétences interculturelles relatives à tout enseignement, en faciliter la prise
de conscience et favoriser leur intégration dans le processus d’acquisition ;
- de développer la place accordée à la réflexion par les apprenants sur les composantes de leur
répertoire plurilingue, sur leurs compétences interculturelles, sur le fonctionnement des langues
et des cultures et sur les moyens les plus efficaces de tirer profit de leurs expériences
personnelles ou collectives d’utilisation et d’apprentissage des langues»


E chegam facilmente à conclusão de que o Dicionário Terminológico cria  barreiras ao desenvolvimento da competência plurilingue.

Como vão os professores de francês, inglês... explicar gramática? Não explicam? Usam as categorias «tradicionais» em língua estrangeira? Não sei!  Poderão dizer-me nos comentários.

Leia-se a caricatura (as coisas não são bem assim, mas quase) de Teolinda Gersão.

Teolinda  Gersão faz uma caricatura do Dicionário Terminológico

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.
11-06-2012
Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).
Teolinda Gersão, junho, 2012



Colóquio «Educação e mobilidades: línguas, culturas,discursos e sujeitos»

Vai ter lugar na universidade de Aveiro Colóquio subordinado a este título. Organizado pela REDE PICNAB- Projeto internacional de investig...