terça-feira, 30 de outubro de 2012

Power Point - Problemas mais frequentes nas apresentações


 Com base num corpus de apresentações de estudantes, construímos esta lista com alguns aspetos mais problemáticos (tudo depende do contexto):
Alguns estudantes
  • constroem uma  apresentação sem identificarem o conceito chave aglutinador de toda a apresentação
  • olham para o ecrã, virando as costas para o público
  • ignoram os gestos reguladores do público
  • apontam para o ecrã
  • leem o que escreveram
  • copiam e colam sem identificar fontes
  • apresentam diapositivos cheios de texto ou quase sem texto mas recorrendo a todo o tipo de carateres, imagens,cores, efeitos dinâmicos
  • utilizam esquemas e gráficos com metáforas nem sempre adequadas ao conceito
  • propõem textos e gráficos ilegíveis
  • Constroem um diapositivo com construções sintáticas diferentes (uma linha  com um nome «apresentação de...»), a linha seguinte com um verbo («definir o conceito de...»), a seguinte com uma frase completa («este estudo pretende que... »)...    
  • escolhem os carateres ao acaso (sem ter em conta o conceito)
  • não utilizam conetores verbais (em primeiro lugar, em segundo lugar, no entanto,...concluindo)
  • não utilizam conetores gestuais (em vez de fazerem gestos de enumeração, por exemplo,  têm as mãos ocupadas com o teclado, comando ou nos bolsos)
  • recorrem a uma espécie de parataxe não verbalizada (sucessão de diapositivos sem relação de hierarquização... como se dissessem e diapositivo, e dispositivo, e,e,e... )
  • propõem uma organização linear de ideias (mesmo recorrendo a separadores de várias cores com múltiplas ligações 
  • não distinguem as vozes convocadas (não se sabe de quem é uma determinada afirmação escrita ou dita) 


«    proposent la même forme d’organisation linéaire des idées, même quand ils indiquent des liens, car le support visuel force une hiérarchisation simplifiée et banalisée.
Ainsi, tous les supports visuels se ressemblent et tous les étudiants se ressemblent dans leur façon de mettre en scène leur discours (Tufte, 2003 ; Frommer, 2010). Pour ceux qui jouent le rôle d’apprenants, il n’y as pas de prise de notes, parce que leurs camarades leur avaient dit qu’ils leur fourniraient leur présentation[1]. Il s’agit d’une illusion de compréhension développée par l’implantation de la pensée PowerPoint (Frommer, 2010), une pensée formatée par le support et qui se traduit par des écrits PowerPoint des étudiants, même dans le cadre de textes devant obéir à d’autres conventions».

FERRÃO TAVARES, C., SILVA, J. & SILVA E SILVA, M. (2011b). L’approche actionnelle dans la formation des enseignent de langues-cultures : littératie(s) multimodale(s). Actes du Colloque international FICEL – DILTEC. Université Sorbonne Nouvelle – Paris III, 3-4 novembre 2011 (No prelo).







[1] Une étude conduite par Betsy Sparrow, Jenny Liu et Daniel M. Wegner, de l’Université de Columbia, révélée par le magazine Science, montre que les utilisateurs mémorisent moins d’information s’ils savent que cette information est disponible quelque part, et, par conséquent, se limitent le plus souvent à en mémoriser la localisation. http://www.sciencemag.org/content/early/2011/07/13/science.1207745.abstract)  
É por isso que convirá que os professores não forneçam as apresentações aos alunos. 

Relvas: «Burriculum vitae»

Já estamos a perder a vontade de rir ao ler artigos ou anedotas sobre «Alípio Abranhos» (a personagem de Eça de Queirós até se tinha formado na Universidade de Coimbra, era ministro do mar, não sabendo onde ficava Moçambique, tinha uns discursos fabulosos... mas ... não igualava o nosso ministro!).

Mas o artigo do Publico de 29 de outubro, escrito por Rui Tavares, é uma peça satírica imperdível.

Vejamos: «A sua carreira começou muito jovem, na área de propedêutica da juventude partidária, com as disciplinas de seguidística aplicada, favorometria elementar e sociopragmática da cunha, na qual revelou aptidões invulgares. Os melhores alunos desta fase passaram para o exercício da chamada chapeladística psefológica, ou alquimia eleitoral. Daqui é um pulo até aos estudos de eclesiologia partidária, logo depois de etnografia parlamentar,e finalmente de ontogenése do mundo empresarial, com especialização em lusotroplicalismo...»

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Cantar de emigração ... jovem

Este parte
Aquele parte
E todos todos se vão
Galiza ficas sem homens
Que possam cortar teu pão...
....

Quando nos anos 60 ouvia, no Jardim da Associação Académica, ou no Gil Vicente, ou ... , Adriano Correia de Oliveira cantar este lindissimo poema de Rosalía de Castro sobre a emigração na Galiza, transposto para a realidade portuguesa por José Niza, sentia uma enorme emoção e revolta. Muitos de nós partiram! O estrangeiro tão longe e tão desejado...  a França país de liberdade! Depois foi Abril...

E, agora, são os jovens que vão e não vão voltar  (nem haverá remessas de emigrantes, Senhor Primeiro Ministro). Foram embora porque o Senhor os convidou a sair, porque não encontravam emprego, porque perderam a esperança de o encontrar, mas agora... começam a ir porque os «melhores» precisam de sair. Como nós, como eu saí, como os meus amigos saíram...   Mas o país tinha mudado e voltaram, cheios de esperança para contribuir para que o nosso país tivesse boas escolas, bons hospitais..., com o dinheiro que tinham poupado!

Agora o nosso país é para velhos... e não é para velhos porque nos tiram as reformas que nós pagámos. Nós colocámos o nosso dinheiro, como as nossas esperanças,  nas mãos  do governo para ele o gerir... e que aconteceu?  

Nem simbolicamente retiram uma percentagem aos vossos salários, às ajudas de custo, às despesas de representação! Significa pouco... mas ao menos isso!

Pagámos a educação desses jovens... quanto se gastou na educação deles? Digam-nos por favor! Quanto  custaram as maternidades,  as vacinas, as escolas... Gostam tanto de números...digam-nos por favor, nós queremos saber.


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Comentários

Já fiz um apelo! Lanço outro: sei que este Blogue é lido nos Estados Unidos quase tanto como em Portugal, em Espanha, França, Alemanha, Angola, Moçambique, Rússia... Também sei os posts mais lidos, mas é pouco. Por vezes, tenho comentários no Facebook, mas  só dos amigos... Não querem conversar comigo, dizer por que leem para eu orientar o que escrevo?  Os blogues são uma ferramenta de partilha. Se não sei  as razões da partilho, perco o entusiasmo!
Obrigada.   

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O Português e a aprendizagem em Ciências Naturais 3

Já procurei mostrar  que muitos  alunos revelam falta de competências linguísticas  ou mesmo comunicativas que estão implicadas nas aprendizagens em Ciências.
O facto de se tratar de um problema de competência plurilingue tem levado especialistas do Conselho da Europa a refletir sobre o assunto. Este é o documento específico para as Ciências.


N° 2
Eléments pour une description des compétences linguistiques en langue de scolarisation nécessaires à l’apprentissage/enseignement des sciences (fin de la scolarité obligatoire)
Démarche et points de référence
Helmut Johannes Vollmer

Existe versão em Inglês

No blogue, não vou evidentemente ter tempo para analisar  este documento, mas vou selecionar algumas passagens para que o leitor as possa cruzar com a rápida  análise feita do capítulo do Relatório Gave relativo às Ciências. 

(Não apareceu nenhum voluntário para as Ciências! Já apareceram para as Línguas!) 



«5.3.1. Catégories pragmatiques et cognitives

Les conventions formelles des genres de discours (c’est-à-dire les réalisations linguistiques et
structurelles de textes) peuvent être décrites au moyen de catégories qui ne relèvent pas de la
syntaxe de la phrase.
Il peut s’agir de catégories telles que les actes (ou fonctions) de langage ou, à un niveau plus élevé et plus abstrait, les fonctions discursives. Ces catégories analytiques appliquées aux textes (et aussi, ou alternativement, aux  processus cognitifs) doivent être considérées comme la représentation discursive des processus cognitifs et de leur réalisation linguistique (au sens de mise en scène), sollicitée pour l’élaboration ou l’exposition du savoir.
Les fonctions discursives déterminent simultanément les opérations cognitives et leur réalisation verbale ; elles sont à l’interface entre la connaissance et la verbalisation, et comportent des opérateurs (ou termes) tels que les suivants :
analyser
argumenter
évaluer
calculer
classifier
comparer
décrire/représenter
déduire
définir
distinguer
énumérer
expliquer
illustrer/exemplifier
induire/inférer
interpréter
juger/évaluer/apprécier
mettre en relation/confronter/recouper
nommer
esquisser
prouver
raconter
rapporter un discours
résumer
préciser [...]

Parmi ces nombreuses fonctions discursives, certaines sont d’ordre fondamental ou global, et
relativement distinctes pour ce qui est des opérations cognitives et des formes discursives impliquées
– ce sont les « macro fonctions ». D’autres peuvent apparaître et jouer un rôle dans plusieurs macros
fonctions – ce sont les « méso fonctions » et les « micro fonctions », que nous regrouperons sous le
terme « micro fonctions » pour les besoins du présent document.
Il faut ranger parmi les macro fonctions, au moins, les fonctions suivantes :
1. CHERCHER (fonction exploratoire)
2. DÉSIGNER (fonction indexicale)
3. DÉCRIRE (fonction référentielle)
4. RAPPORTER (fonction narrative)
5. EXPLIQUER (fonction descriptive)
6. DÉFENDRE (fonction argumentative)
7. EVALUER (fonction évaluative)
8. NEGOCIER (fonction interactive)
9. CRÉER (fonction créative)
(...)                                               

Parmi les nombreuses micro fonctions, on peut citer les suivantes :
Poser des questions
Interroger
Deviner
Identifier
Classifier
Catégoriser
Collecter
Sélectionner
Rapporter
Résumer
Présenter
Subdiviser
Contextualiser
Structurer
Contraster
Conjecturer
Prédire
Ces micro fonctions s’inscrivent à un niveau inférieur à celui des macro fonctions mais concernent
elles aussi, simultanément, les activités cognitives et verbales.

5.3.2 Fonctions discursives dans l’éducation scientifique
Toutes les macro fonctions mentionnées ci-dessus sont d’une grande utilité pour caractériser les
discours de l’éducation scientifique, tandis qu’au  niveau des micro fonctions, les sous-groupes
d’opérations et de processus cognitifs/discursifs n’interviennent que dans des contextes précis tels
que les suivants :
• rapporter (une expérience)
• classifier (des objets, des phénomènes, des processus)
• définir (un élément, une réaction, une notion comme l’énergie)
• représenter (des données textuelles ou matérielles)
• interpréter (des données générées ou préexistantes)
• mettre en parallèle et/ou en opposition (des données et des interprétations)
• déduire (des interprétations/conclusions à partir de données)
• justifier (des procédures choisies, des déductions, des décisions éthiques)
• intégrer (une observation ou un résultat dans un ensemble)
• soumettre à réflexion, mettre en balance (des arguments pour et contre...)
• [...]
Pour chacune de ces opérations, il est possible d’identifier les ressources linguistiques nécessaires à
sa réalisation, avec les variantes à prévoir d’un genre à l’autre. Il est probable que les expressions
(verbes, opérateurs verbaux) référant à ces opérations cognitives ont des équivalents dans toutes les
langues ; il devrait donc être possible d’en dresser des inventaires transposables (communs à
différentes langues ou différentes disciplines).p. 23, 24

Como primeira conclusão desta transcrição cruzada com uma leitura do Relatório do Gave  sublinho, por um lado, que os professores de Ciências têm de estar muito mais atentos à competência comunicativa (incluindo  a dimensão linguística) para ensinarem Ciências, por outro, que, nas horas de Português(aumentaram), poderia haver  uma distribuição que tivesse em conta o Português como matéria e o Português nas outras matérias...
Continua...
   



Redes sociais, big data, microtargeting e...

...eleições americanas e escola e  sociedade e cultura e  indivíduo...

Devo dizer que fiquei encantada com a WEB 2.0. O poder do cidadão participativo, a inteligência coletiva, we think... Criei plataformas de blearning, criei blogues, estou nas redes sociais!
O ano passado achei imensa piada  ao meu perfil nas redes : o meu museu, graças à aplicação da Intel.



Mas... começo a não gostar nada. Fiquei incomodada ao ver a idade dos meus amigos, ao ver  as horas precisas em que escrevi no Facebook ou via blogues (nos intervalos devem estar  possivelmente as minhas idas à casa de banho!), os sítios onde estiva, as palavras chave,  a quantidade de comentários que cada um me fez, as horas e minutos precisos e o local, se foi no computador ou no iphone ou no meu android  antigo... A aplicação wolframalpha é espetacular! Para investigação é ótima. Já nem são precisos diários...basta recolher  estas estatísticas... Mas...

Estas aplicações relevam de Big Data «big data is a collection of data sets so large and complex that it becomes difficult to process using on-hand database management tools. The challenges include capture, curation, storage, search, sharing, analysis, and visualization».  

A WEB 3.0 ou Web semântica como se dizia (não sei de se se diz assim, corrijam se disser coisas erradas) permite a agregação  e o tratamento de informação. Neste momento, o cidadão participativo está convencido de que participa... mas será que participa?  Ou pouco! Quem estará a receber convocatórias para manifestações, por exemplo? Não digo que, neste caso, não seja, ainda,  o cidadão participativo, mas...

Porque agora  é a partir dos Big Data que se constrói a publicidade e a propaganda política... Vejamos um exemplo. Obama foi um dos grandes utilizadores das primeiras redes sociais em campanhas. Agora, está a recorrer ao microtargeting «ao recurso a modelos científicos para prever o comportamento individual de cada eleitor»  como se lia ontem no Público, no artigo «As campanhas tornaram-se concursos para modificar comportamentos». Em função dos Big data que estamos a fornecer à «Nuvem» com as nossos textos científicos, as nossas participações em redes de amigos... hoje sabe-se quem gosta de o quê... E depois é dirigir as mensagens em função dos grupos de interesse... e como «Maria vai com as outras...»... E isso leva a que Ken Strasma, consultor da campanha de Obama em 2008, diga que «Nós sabemos em quem as pessoas vão votar antes delas próprias» (Público, 21 de Outubro).   Eu quero que ganhe Obama, mas não gosto destas estratégias. Mesmo que se diga que não se trata de persuasão e de manipulação mas de mobilização. É evidente que nós mobilizamo-nos para causas boas. Mas que irá acontecer com esta «revolução científica»?   A História tem-nos mostrado como a Ciência pode ser utilizada da pior maneira!   E qual a nossa função e o nosso poder em educação?

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Discurso Científico e trabalhos em Bolonha

Este post foi retirado  de artigo que publiquei nesta revista disponível para venda na UIIPS do Instituto Politécnico de Santarém ou nas Edições Cosmos.  

A reprodução parcial deste texto deve ser identificada da seguinte forma:
Ferrão Tavares, C. (2011). Abordagem acional e competência comunicativa multimodal: estaleiro de apresentação de trabalhos académicos. Intercompreensão, Revista de Didáctica das Línguas. Santarém: IPS-ed. Cosmos.pp. 85-118


«Com vista a uma reflexão sobre a apresentação de trabalhos científicos, impõe-se apresentar, ainda que de forma breve, algumas características da comunicação científica, que não se resume a um léxico específico, como muitas vezes se considera. A noção de géneros discursivos - que não vamos aprofundar - tem-nos parecido operatória, no contexto do ensino superior para o desenvolvimento, nomeadamente, da componente pragmática. Afinal, os estudantes do ensino superior são expostos a diversos géneros, que podem ser sistematizadas nos seguintes termos, tal como proposto  por Béacco et al. (2010: 21):
·         formes textuelles des genres de la communication ordinaire (conversation, récit, opinion personnelle, expression de sentiments) ;
·         formes textuelles de ‘genres’ intermédiaires et médiateurs, non nécessairement présents dans la communication sociale réelle ou bien ambivalents (utilisés dans la communication ordinaire et scientifique mais selon des modalités différentes) ;
·         formes textuelles correspondant aux genres de discours scientifiques (ceux des communautés scientifiques), parascientifiques (ceux des enseignements universitaires des disciplines) ou de divulgation, formes que l’on aura choisies pour modèles d’apprentissage et objectifs de l’enseignement.

Entre estes três níveis, há grandes diferenças na maneira de construir os textos, o que representa, já por si, uma enorme dificuldade para os discentes. Com efeito, habituados a situar-se, quase sempre, no primeiro nível, que designamos como interessante,[1] os estudantes têm dificuldade em passar para os géneros intermédios e, por exemplo, fazer uma transcrição no seu texto de discursos do terceiro nível, que designamos como demonstrativo, fazendo dizer aos autores, muitas vezes, o que eles nunca disseram.

Para desenvolver estes aspectos, retomamos alguns dados do documento referido, que nos permitimos resumir e adaptar.

Assim, no primeiro nível, podemos distinguir as seguintes operações cognitivas e discursivas: apresentar,  descrever, contar, avaliar (convicção pessoal), argumentar, com recurso ao emprego do eu, de vocabulário genérico, de termos vagos de avaliação, de frases simples, da coordenação e com o recurso às modalizações apreciativa e deôntica - a título exemplificativo, Eu acho que… é muito interessante (modalidade apreciativa). Em muitos trabalhos, na própria introdução, os estudantes conseguem chegar às implicações dos mesmos com a produção de enunciados como, por exemplo, os professores devem utilizar as TIC (modalidade deôntica). Nos dois níveis seguintes, pretende-se que os estudantes não só veiculem os atos de fala, que traduzem as operações cognitivas referidas, como realizem, também, as operações de explicar, de definir, de exemplificar, de comparar, de relacionar e de avaliar (em outros termos que não os da convicção pessoal), que se distanciem do seu discurso, recorrendo a uma terminologia mais precisa, a pronomes pessoais que conduzam a maior objectivação do discurso, a nominalizações, a construções passivas, a formas de quantificação mais precisas, a articuladores lógicos - que implicam o emprego de conjunções que favoreçam o emprego do condicional e do conjuntivo -, formas de modalização epistémica (nomeadamente, através da certeza com valor geral – O vento é o ar em movimento – ou, então, de diferentes verbalizações da dúvida e da hipótese, como, por exemplo:,  Na sequência do autor x, talvez se possa considerar que…). Neste caso, não é a convicção pessoal que está expressa. Trata-se de uma afirmação aceite pela comunidade científica ou defendida por um investigador com legitimidade para o fazer e que, muitas vezes, nem sequer utiliza a modalidade da certeza.

Uma dificuldade sentida, particularmente, pelos estudantes prende-se com o recurso a estrutura de sequências explicativas. Por isso é necessário tomarem conhecimento dessa estrutura. Num texto explicativo, encontramos, com frequência, a seguinte sequência: uma determinada definição, seguida de caracterização, com a distinção de subcategorias, e, seguidamente, da devida exemplificação. Estas diferentes fases são anunciadas e interligadas pelos conectores lógicos (contudo, mas, no entanto…) e por performativos discursivos (analisaremos…, definiremos…, sintetizámos…), incluindo diversas vozes, marcadas através de introdutores de citação (segundo X…, na sequência dos trabalhos de…, os autores x distinguem três categorias…). Os trabalhos que são pedidos no final do Mestrado ou do Doutoramento obedecem a uma estrutura textual que reflete o próprio processo investigativo. Numa tese, apresenta-se um projecto de investigação, conduzido, normalmente, durante um período geralmente longo; porém, é longo o processo de escrita e, como tal, distanciado da investigação. Numa monografia ou numa dissertação científica, apresentam-se os resultados de uma investigação sobre um assunto determinado, designadamente, com parco desenvolvimento, dado o reduzido período de tempo em que é conduzido o estudo. A construção do discurso de um trabalho de projecto ou do relatório de estágio acompanha o próprio processo de investigação-intervenção. Neste caso, o estudante – investigador-trabalhador – vai conduzir um projecto ou animar um estágio, tendo o seu trabalho implicações na ação. Contudo, é preciso ter em conta que, dada a caracterização legal deste tipo de trabalho em Bolonha, este não se restringe à ação. Assim, para ter implicações na ação (devendo ser de natureza aplicada), o trabalho final  parte da observação de um contexto profissional, que fará emergir diversas questões e hipóteses (problematização)  que exigem fundamentação (enquadramento teórico), para identificar correntes e autores que abordaram o assunto antes do estudante, a definição de conceitos e a distinção de categorias de análise. Ao mesmo tempo, o autor do projeto ou o estagiário vai conduzindo a ação - criando um determinado produto, desenvolvendo uma determinada sequência pedagógica, construindo uma página web... -, apercebendo-se do antes, do processo e do depois. Ao mesmo tempo que desenvolve o projeto, servindo-se dos dados do enquadramento teórico para o fundamentar e analisar o seu caso, encontra novas categorias em outros autores ou na própria observação. Tem, evidentemente, de fazer falar os dados, analisá-los e interpretá-los, de molde a determinar se os mesmos respondem ou não (ou parcialmente) às questões-problema levantadas. No final, impõe-se que o discente se interrogue sobre as implicações do seu trabalho – para si próprio, para o público, para a empresa e sobre o próprio futuro do trabalho realizado, enunciando outras possíveis vias de exploração.

Assim sendo, todos os trabalhos de fim de curso, e independentemente da profundidade, do número de sujeitos ou de objectos «interrogados», do tempo, do número de páginas, da integração ou não em equipas de investigação…, exigem as mesmas competências da parte do estudante-investigador do Ensino Superior universitário ou politécnico, daí se compreendendo que, no Decreto-Lei nº 74/2006, de 24 de março, as competências não sejam diferenciadas nos dois subsistemas».



[1] L. Porcher publicou, em 1985, um artigo intitulado «L’intéressant et le démonstratif: à propos du statut de la didactique des langues et des cultures» (ÉLA, 60, 17-21). Com a finalidade de levar o estudante a distinguir entre os dois níveis, nas plataformas de elearning de apoio às nossas unidades curriculares, costumamos criar dois fóruns: um, interessante, com comentários de senso comum, e um outro, no qual o estudante deve eliminar o senso comum, definindo, argumentando, identificando as fontes e exigindo, ,assim, um grau maior de distanciamento do estudante, intitulado demonstrativo. O estudante deve, em função da análise que faz dos contributos (que são avaliados pelo professor) que escreve para a plataforma, decidir o fórum em que publica um determinado artigo.  

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